7 - Adeus UTI e obrigado por tudo
Estava tudo indo bem e durante uma tarde o dr. Tales veio conversar comigo e de
pronto já me dizia que eu estaria de alta da uti e que iria para a internação no
apartamento. O cora-ção disparou porque sabia que logo estaria junto da ale e
que realmente estava evoluindo. A logística é tão boa que mais do que rápido,
localizaram e informaram minha esposa e deixaram tudo preparado. Lá em casa
estavam a mil, a ale veio ainda sem todas as coisas que precisava para o
hospital, mas o que importava era estarmos juntos. Ela chegou e vie-ram me
buscar de cadeira de rodas, prepararam o cilindro para transporte e fomos para
minha nova instalação. Na passada por dentro da uti deu tempo de falar em alto
em bom tom, "vocês sempre moraram em meu coração!" despedida com gratidão, coisa
boa de-mais. Chegamos no apartamento, a equipe de lá me recebeu e como sempre,
super atenciosos e prestativos. Minha alegria era enorme, estava junto da minha
ale e me sentia mais seguro agora com ela. Nunca ficamos tanto tempo separados e
sabia o quanto ela me faria bem além de me ajudar. Saudades é um negócio maluco,
chega a doer. Num instante ela assu-miu seu posto de acompanhante, organizou o
armário, conversou com as enfermeiras, já pediu uma cadeira para eu poder tomar
banho, organizou a mangueira de oxigênio para poder ir ao banheiro. Tudo
organizado. Acabaram meus problemas de regular a cama, ter de esperar o momento
certo para pedir o papagaio, enfim tantas coisas que com ela seria muito mais
fácil. Falamos por um bom tempo e depois dos avisos da enfermagem do setor, que
ela não poderia sair do quarto para nada o que parecia ruim, para nós era só
alegria. A primeira vez que fui no vaso sanitário dava vontade até de chorar,
coisas simples sendo recuperadas e a liberdade de ir ao banheiro sozinho.
Lembrei de tanto trabalho que tive nessa parte, em me adaptar ao processo, a ter
de pedir para as pessoas praticamente tudo, ser limpo e higienizado por pessoas
desconhecidas. Num dos delírios na uti sonhei que ia no banheiro sozinho e
chegava a pensar como faria para desligar tudo e ir, só que lá era tempo de
comadre. O banho foi demais, usando a cadeira de banho foi tranquilo, a ale
neste co-meço fazia todo trabalho e até no levantar da cama e cadeira era
tracionado, deixando o corpo firme para que ela me puxasse. Como cansava esses
primeiros banhos, já usando o cateter nasal, sempre ia com o oxigênio ligado e
me concentrava em respeitar e observar meus sinais. No quarto tinha monitor,
parecido com o da uti mais bem mais simples, tam-bém no dedo mais sem toda
aqueles sensores ligados em mim. O problema era se adaptar ao alarme quando a
saturação caia a um certo limite, a ale passou a noite de olho no moni-tor. Tudo
era diferente, pois a estrutura e monitoramento da uti são bem detalhados e
ago-ra a gente tinha de olhar. Na noite seguinte a enfermeira nos avisou que
estava sendo mo-nitorado na central e que podia desligar o alarme se quisesse. A
noite foi bem melhor e lo-go a ale aprendeu a regular os limites para do alarme,
desligar e regular tudo, mas sempre estava ligada. A rotina ia se organizando,
as tarefas do dia a dia, as visitas das técnicas e en-fermeiras, o médico e os
fisioterapeutas. Uma das informações mais importante nesta fase foi o dr. Paulo
que trouxe, para não me basear somente nos números, mas ter a percepção de como
estava, se me sentia bem ou mal, mas independente do famoso número da
satura-ção. Algumas pessoas pós covid não tem os mesmo padrões de uma pessoa
normal, ainda mais em recuperação. Assim sempre pensava que podia mais, mesmo
aparentemente com os números baixos, tentava fazer sempre mais. Notava mais
tolerância nos exercícios, no levantar e sentar. Outra coisa que comecei a
entender é que na segurança, precisava redu-zir o consumo de oxigênio, porque
nosso corpo se habitua a receber de bandeja o oxigênio e precisamos desmamar o
corpo dessa facilidade. Entrei no apartamento usando 6l/min. E a meta diária
seria reduzir 1l por dia até zerarmos em conjunto com os exames e ter minha
alta. O médico propôs a primeira redução e de cara já topei. O corpo se adaptava
com a redução e dois dias depois, estava normalizado. A grande guerra conforme o
médico expli-cava era controlar a ansiedade e perceber o meu real estado. Muitos
relatos vinham das equipes e diziam como o medo aliado a ansiedade paralisava
alguns pacientes. Ficavam sem poder alterar seus consumos de oxigênio e por
consequência, não permitiam seus or-ganismos reagirem. Nossos dias iam passando
e nos divertíamos muito, nosso dia iniciava com um papagaio ao amanhecer, depois
me ajeitava na cama, a ale trocava de roupa e já ligávamos a tv para ver o
noticiário enquanto não chegava o café. Um macete que percebemos é que quando
nos atrasávamos, nos preparos, as primeiras medições da equipe que assumia o
turno, vi-nha alterada pela minha movimentação. Chegava o café, a gente comia e
depois já come-çava a querer sair da cama. Era tão bom, que fui notando minha
disposição mudando a ca-da dia. Seguindo a rotina, aparecia o médico e logo
depois vinha a fisioterapia para fazer-mos os exercícios. Agora a espera já era
para o almoço, que chegava às 11:00hs, comíamos e geralmente tínhamos um tempo
para uma soneca após o almoço. Era muito bom esse momento e um sono que nos
derrubava. Acordávamos antes das 14:00 e logo já vinha o ca-fé da tarde.
Ficávamos assistindo sessão da tarde ou qualquer programa de tv, mas sempre
conversando muito, sobre tudo, tirando o atraso e transformando esse tempo em um
tempo bom, de recuperação, de restauração. Fechando o dia, vinha o jantar as
17:00h, depois lá pelas 19:00hs o banho e depois chegava à ceia e nos
preparávamos para dormir. Tudo ca-minhava e nos mantínhamos bem seguindo os
protocolos do hospital, mas também man-tendo nossa rotina de casal, como se
estivéssemos em um hotel de férias. Abstraiamos o lu-gar e chegávamos a sonhar
com o momento que estaríamos em casa novamente. Para constatar a evolução,
precisamos sempre dos exames e como sempre, lá vem a gasometria. Era o número
mais esperado que comprovaria uma mudança no percentual de oxigênio no sangue e
daria o real aval para as reduções progressivas do oxigênio no cateter e uma luz
no fim do túnel para a tão sonhada alta. Começava o drama, mas de cara, uma
enfermeira chamada Elen, fez a coleta com uma habilidade e previsão incríveis e
tudo deu certo. Os exames registraram progresso e uma melhora, saí de um padrão
de 32% para 88%. Era uma primeira melhora mais ainda faltava e isso significava
que teria novos exames pela frente. Nossa retaguarda era muito forte, fomos
sustentados em oração por muitas pessoas que se levantaram pela nossa vida, pela
nossa causa e pela nossa casa. Nossos filhos, eu di-go filhos porque nossa nora
foi incorporada à família de uma forma tão especial que ela é como uma filha
para nós. Eles se desdobravam para manter e cuidar de nossa casa, nos abastecer
com pequenos mimos e necessidades e as vezes até uns pequenos contrabandos de
besteiras. Com o tempo de restrição você vai tendo desejo de comer coisas
diferentes e por mais que a comida fosse ótima, sempre queríamos um biscoito
diferente, ou alguma coisa que lembrasse nosso lar. O bom que a nutricionista
Tati, assim que a conhecia, era uma profissional exemplar e fazia tudo para me
oferecer uma dieta agradável e funcional. Sempre tinha água de côco e os
iogurtes sem lactose eram uma explosão de sabores para esse tempo. Além desses
cuidados, tomava vitaminas com suplemento e ainda uma proteí-na solúvel para
após os exercícios. Já atingia 1l/min. De oxigênio e percebia que estava quase
zerando. Eram os sinais do progresso, apesar de ainda dessaturar com esforços,
mi-nha recuperação era mais rápida, tolerava melhor os exercícios e não parava
mais na ca-ma. Agora começava a ser cogitada minha alta e mal podíamos nos
conter de tanta alegria. Precisava fazer agora o teste de gasometria, mas
ficando um tempo sem oxigênio. Era um novo desafio e eu estava pronto para
encarar esse novo parâmetro e fazer um grande tira teima.
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