1 - Positivo para Covid
Fim de semana estava pacato, mas a garganta arranhava um pouco, logo veio a
febre e uma dor no corpo. Todos em casa sentíamos esses sintomas e sabíamos que
inevitavelmen-te teríamos de testar, para a temível covid. Tanto ouvíamos sobre
ela e seu rastro de morte que ela tem deixado neste mundo, mesmo assim, ainda
não sentíamos toda sua gravidade e sensação de dúvida. Tomávamos cuidados, mas
confesso que já estava muito displicente em protocolos. Uma saudade de
aglomerar, de ter de volta nossa casa cheia de pessoas, enfim ter nossa vida de
volta. Chegamos na Unimed e logo fomos atendidos, fizemos o teste PCR rápido. O
resultado era positivo para mim e meu filho. Voltamos para a casa com uma
receita e uma esperança de que todos nossos problemas seriam resolvidos como um
passe de mágica. De tarde, Alexan-dra minha esposa, sentia sintomas também e com
minha nora foi fazer o bendito teste. Seu exame deu negativo, mas com cara de
falso negativo. Realmente estava com covid e con-firmou após o terceiro exame.
No dia seguinte tudo estava pior, sintomas mais intensos e a febre vindo, além
da falta de ar quando tossia. Lá fomos nós de novo para Unimed, só que agora
tudo parecia ter piora-do, estava com oxigênio e com uma saturação ruim. Minha
primeira gasometria era feita e já indicava a insuficiência de oxigênio no
sangue. Esse exame por sinal, não é fácil, uma punção na sua artéria, para
identificar essa concentração, mal sabia de quantas ainda teria de fazer. Veio
então a notícia, que precisaria ser internado e que ficaria em isolamento no
hospital são josé, para ser acompanhado, inclusive teria de ir para lá de
ambulância, pois precisaria estar com oxigênio. De uma hora para outra, estava
em uma ambulância, só com a roupa do corpo, sem chinelos a caminho do hospital e
sem ter a minha ale do meu lado. Um sentimento de insegurança batia e ia ouvindo
relatos do pessoal da ambulância, sobre casos e como o hospital estava cheio.
Chegando ao hospital são josé, fui levado direto para o quarto, um leito que
ainda não tinha sido devidamente limpo e arrumado, mas era ali que ficaria no
tal isolamento e glória a deus por ter uma vaga. Fui colocado na cama, com uma
máscara com reservatório, para receber oxigênio e logo em seguida recebi uma
mangueira de látex, que seria a extensão para eu poder ir ao banheiro. Nestas
alturas do campeonato, procurava identificar quais se-riam minhas necessidades
básicas e como poderia me virar para fazer algumas destas ati-vidades. Logo
começaram as medicações injetáveis e logo as reclamações do meu acesso venoso e
que precisaria ser refeito. Desde que passei pelo câncer e pela quimioterapia,
as veias que já não eram aquela coisa, sumiram de vez. Sempre uma luta para
achar as tão necessárias veias. Já sentia um cansaço maior e tudo começava ser
mais difícil que o normal. Ir ao banheiro passou a ser um suplício, pois tinha
de levantar, trocar a mangueira, colocando a extensão, ir até o banheiro e ter
de driblar o chão sempre molhado em volta do vaso. A diarreia me perseguia, por
efeito da covid e dos antibióticos. Dia a dia isso ia se tor-nando muito
difícil, cansativo e com todo esse contexto minha higiene ia decaindo. Usava a
mesma roupa, não havia banho e como o esgotamento ia aumentando. Essas
atividades iam se tornando cada vez mais distantes. como era bom falar com a
ale, o Felipe, meu filho e a Lolo, minha nora. Tão reconfortante, mas ao mesmo
tempo distante, assustador, porque o que eu queria mesmo dizer para eles é...me
tira daqui. As notícias para casa eram assim, ou pelo médico ou pelo telefone
através da videochamada. Um dia fui apresentado a máscara VNI e até tirei foto
com ela, tentei ser "amigo" dela, pois minha saturação e pulmões dependiam agora
dessa terapia. Ela consistia em uma máscara com pressão positiva de oxigênio,
que era fixada em seu rosto e através deste aparelho, sua respiração e pulmões
eram estimulados. Até aí tudo bem, a claustrofo-bia era até controlável, mas o
desconforto era enorme, sem contar o tempo que tinha de fi-car com esse
aparelho, entre duas a três horas contínuas. Entendia que se aquilo desse
cer-to, não seria entubado e talvez logo poderia ir para casa, mas um dia me
esqueceram com ela e o desespero foi tão grande ao ponto de não conseguir fazer
mais por alguns dias. A salvação era um modelo que não fechava no rosto todo,
mas tinha todas as dificuldades da antecessora. Sentia que não melhorava e
parecia mais cansado, precisando mais de oxigênio e cada vez mais inquieto. No
meio disso tudo as coisas pequenas iam ficando grandes, a alimentação chegava no
corredor e minha mangueira não alcançava, tinha de chamar toda vez as
en-fermeiras para colocar a comida para dentro e devido a correria que estava,
nem sempre chegava logo, além do humor de quem trazia a bandeja não estar muito
legal. Sabia que ti-nha de me alimentar, mas sabia também que precisava tirar a
máscara de oxigênio para comer e acabava sempre com a saturação caindo. As
intermináveis medicações eram sem-pre no meio da noite, sendo acordado com as
luzes e as vezes alguma dor pela velocidade das injeções no acesso.
Independentemente do que acontecia, nunca deixei de agradecer, mesmo sentindo
algum tipo de desconforto ou dor, simplesmente sentia um nível de
vulne-rabilidade e dependência crescendo a cada dia. No meio disso tudo uma boa
notícia, a ale poderia ficar comigo em um isolamento, um apartamento, mas agora
com acompanhante. Dei a notícia para a ale e foi uma festa, po-deríamos estar
juntos. A chegada dela foi um alívio, mas não durou muito a alegria, havia
vagado um leito de uti no hospital Jaraguá e teria de ser transferido para lá
devido minhas condições. Logo em seguida fui colocado em uma ambulância e levado
para o hospital Jara-guá. Novamente um processo de dúvidas me tomava e o medo me
assombrava. Tantas pergun-tas que tinha na cabeça, quanto temor de precisar de
uma uti, quando poderei ver minha ale novamente e o pavor da temida entubação.
Uma certeza sempre eu tive, deus estava comigo e nunca deixaria de me amar.
Cheguei na uti covid, um setor novo que recebia os pacientes graves de covid e
reunia todos em um mesmo setor. Fui instalado em um leito, logo ligado a todo
tipo de dispositivos, sonda para urina, sonda nasogástrica, acesso central, novo
acesso venoso e sensores para os monitores de controle além da já conhecida
máscara de reservatório para o oxigênio. Começava a minha jornada na uti e a
batalha estava inici-ada, sentia o espírito de morte naquele lugar, ao mesmo
tempo que sentia deus. Todas as prioridades estavam em respirar e sobreviver,
banho nem pensar e visitas muito menos.
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