4 - Cheguei a UTI pós-COVID
Agora estou chegando em um novo ambiente, já parece diferente da antecessora
uti-covid, novos enfermeiros, equipes e médicos. Outra coisa boa é que agora
poderei receber visita e quem sabe o tão sonhado banho. Já chegando no meu
leito, sou colocado na minha nova cama e já gravo o nome do enfermeiro, super
animado e alegre. Ele se chama Eldis e já ob-servei sua interação com os
pacientes de uma maneira super humana. De cara vi ele arru-mando a tv para o meu
vizinho do meu lado direito e de cara pensei quanto tempo eu já es-tava sem
saber o que acontecia no mundo, quanto tempo não via uma tv e como seria bom
para me distrair um pouco. Arrumado em minha nova cama, uma técnica aparece no
meu leito e fecha a cortina em volta e já me avisa, que deixaria minha esposa e
filho me ver. O coração quase não cabia no peito, foram todos esses dias de
isolamento, da falta de estar com eles e de uma distân-cia que nunca provamos.
Logo aparecem os três, ale, Felipe e Lolo, chorei de tantas sauda-des que sentia
deles, queria abraça-los, falar tantas coisas que mal podia segurar meu agi-to.
Feliz demais e ao mesmo tempo, preocupado por estarem ali fora do horário de
visita e os três, mas logo a alegria acabou e foram chamados a deixar a uti. Foi
bom demais já me sentia renovado e na certeza de um novo tempo que iniciava.
Logo passado a alegria veio uma notícia não tão boa, que teria de recolocar a
sonda naso-gástrica, por onde vinha minha alimentação. Essa sonda ela entra pelo
nariz e vai até o es-tômago, provável em uma noite dessas devo ter puxado sem
querer e ela saiu do lugar. A técnica chegou e já me avisou que passaríamos a
sonda. Fiquei apreensivo só de pensar como seria isso e logo começou o
procedimento. Foram cinco tentativas, mas infelizmente sem sucesso, descobri que
tenho desvio de septo e fui bem machucado. No dia seguinte ve-ria o que iam
fazer, mas estava muito decidido de avisar ao médico que caso fosse passar a
sonda, que me sedassem. Amanheceu e via a movimentação até que recebi a notícia
que receberia meu primeiro ba-nho de leito. Não imaginava como seria isso, mas
sabia que mudaria meu estado e também minha moral, pois ficar tempo sem banho
vai te derrubando. Vieram dois técnicos e com compressas, sabão líquido e bacias
começaram a me lavar na cama. A habilidade deles era incrível, nesse processo
era lavado, meus lençóis eram trocados e em duas viradas estava tudo resolvido.
Senti como se tivesse sendo lavados por filhos, um respeito, cuidado e
hu-manidade que deixam tudo que poderia ser constrangedor, como algo natural.
Era deus usando esses técnicos de maneira sobrenatural. Só sei que depois desse
banho estou pronto para receber minha amada Sentado em minha cama, estava
preocupado ainda como seria o suplício da sonda, que não estava resolvido.
Quando escutei o médico falando com a nutricionista, que se me alimen-tasse via
oral, poderia ser dispensada a sonda e o médico argumentava na questão da mi-nha
queda de saturação quando tirava a máscara. Rapidamente fiz sinal para o médico
e me propus a fazer a dieta via oral. Sugeri para ambos fazer uma dieta líquida
e utilizando um canudo, por baixo da máscara de oxigênio, para me alimentar.
Olharam para mim e to-param a sugestão. De tabela me livrei da sonda e tinha a
chance de regular de vez a dieta e a evacuação, pois a operação da fralda não
era fácil. Estava quase na hora da minha primeira visita, era perto do meio dia
e todo o ambiente se modificava para este momento. Todos os leitos arrumados,
com suas cortinas puxadas e os pacientes na expectativa de suas visitas. Era o
turno da tarde que estava assumindo, de cara vi um enfermeiro de toca colorida,
feliz da vida, falando com cada paciente, independen-temente de estarem sedados
ou não, seu nome era David e ele dava o tom e o astral daque-la equipe. Lá vem a
ale, que alegria a ver chegando e que conforto poder transmitir para ela tudo
que passava de maneira direta. Conversamos, ficamos abraçados e nós olhamos
muito, nunca passamos tanto tempo separados e nunca ficamos na eminência de ter
nossa história interrompida. Logo veio um pedido para a ale, desejava muito
tomar um Gatorade, cheguei a sonhar com o sabor e a cor daquele líquido. Acabada
a visita, logo aparece no meu leito a fisioterapeuta Thaís, lembrava muito minha
prima Fernanda fisicamente. Percebi sua movimentação de forma diferente, via uma
ação sobre os pacientes, de uma forma efetiva. Ela cumprimentava todos, leito
por leito, conver-sava e os colocava em novas posições, fazia exercícios e por
vezes colocava na poltrona. Tanto os sedados como os entubados e os que estavam
acordados, que no caso eram pou-cos. Bom chegou minha vez e de cara a Thaís já
propôs, vamos ficar de pé? Em uma fração de segundos tive medo, pois sentia meu
corpo quase sem respostas e ainda não tinha saído da cama, mas de cara tive
muita confiança. Logo de pronto, topei e já dizendo para ela, se ia me ajudar eu
topava. Com muito esforço, fiquei de pé, ainda sentindo tontura, fraqueza nas
pernas e meu coração quase explodindo pelas pulsações, mas confiante que podia e
que queria. Nesses momentos o medo era substituído por uma força, sabia que era
de deus e também lembrava da minha família. Passei no primeiro desafio e a forma
que a Thaís in-centivava, aguçava para vencer e ansiar pelo próximo desafio.
Tinha agora uma novidade para contar a ale e consistia em um novo progresso.
Chegou à noite e uma nova equipe chega, com toda sua logística e agitação. Senti
que pre-cisava evacuar, mas ainda estava no sistema da fralda. Pedi a um técnico
me trocar e de cara ele me perguntou se já havia usado uma comadre e como era
melhor para não dar as-saduras. Nunca usei, mas já de cara falei para ele: - se
me ensinar posso usar... Realmente nas pequenas coisas moram as alegrias, que
bom se libertar das fraldas e das assaduras e poder de alguma forma estar
melhor. Com a dieta bem calibrada, tudo deu certo e evacua-va um dia sim outro
não, tudo dentro da normalidade e agora de uma nova forma. Glórias a deus por
esses anjos, que estão sempre dispostos a nos atender e melhorar nossa condição.
Meu vizinho do leito a minha direita saiu de alta e mais do rápido requisitei a
única tv da uti. Via a possibilidade de me distrair e manter a mente ativa, além
de me atualizar através dos noticiários. Era no momento o único paciente lúcido
na uti e sem sedação, por isso aca-bei recebendo a tv. Só pegava a Record e
precisava estar em um determinado lugar, rapi-damente aprendi as manhas dela e
que não teria controle remoto. Assistia tv durante o dia todo, via a toda a
programação da Record e logo me inteirava das notícias. Ganhava uma rotina
novamente e como era bom reestabelecer os horários, programas e de alguma
for-ma, não estar mais sujeito a desorientação, que era eminente. Durante a
fisioterapia com a máscara VNI, foi uma ajuda para me manter sob controle,
fazendo os exercícios respirató-rios. Novamente estava na hora da visita e a ale
vem trazendo um mimo, uma garrafinha de Ga-torade, além de sua presença me
iluminar e me dar mais força para lutar era o momento mais esperado por mim.
Contava as horas através da tv e do relógio de parede que tinha na minha frente.
Por sinal, esse relógio foi uma ajuda para que não ficasse perdido e também um
suplício para o setor, pois sabia a hora de tudo e estava sempre de olho.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEduardo, sua força e dedicação eram combustíveis para mim. Parabéns pelo relato! Obrigada pela lembrança.
ExcluirTem muito mais a falar de ti. Obrigado mesmo por tudo!!
ExcluirDeus colocou ao seu lado pessoas de confiança dele para cuidar de ti... que cada um desses anjos sejam renovados diariamente em amor, paz e confiança em Deus.
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