3 - UTI COVID - 2

Amanheceu e ainda estou na uti covid, só que me sinto desorientado, os enfermeiros estão em volta de minha cama, minha pulsação está alta, estou ofegante e me sinto assustado, ti-ve um pesadelo e com a minha baixa oxigenação, por eu ter tirado a máscara, tive delírios e vi todos os leitos como se estivessem sob o trilho de trem e todos as pessoas estavam de-capitadas e eu só sentia à vontade de sair dali correndo. Foi quando percebi que estava amarrado e um técnico em enfermagem me tranquilizava enquanto os meus sinais estabili-zavam. Tudo foi acalmando até tudo estabilizar, meus cuidados com a máscara de oxigênio redobraram. Minha higiene continuava péssima, estava quase completando 20 dias sem banho e meu cabelo estava para lá de oleoso. Continuava entendendo que a prioridade não era nada diferente do que superar esta etapa. Em falar em prioridade, tinha uma amiga chamada Vanessa, uma técnica em enfermagem que já esteve comigo em outras situações, novamente estava ali, orando pela minha vida e a cada dia observando sempre como estava a minha diurese, pois alguns sinais lá na uti fa-lavam como você realmente estava e o bom funcionamento do rim era um ótimo sinal de menos um problema. Via a rotina da enfermagem e as equipes se renovar em turnos, mas via o quanto todos es-tavam cansados e sempre naquela loucura. Eram incríveis como tinham equipes tão entro-sadas que mal chegavam, já assumiam suas atividades, como uma equipe tem de ser. Al-guns chegavam ali depois de um plantão de 12 horas no hospital são josé, outros vinham para o seu turno de 6 horas, mas a grande maioria para poder ganhar algo melhor, precisa-va se submeter a essa jornada dupla. Se não houver paixão, realmente poucos sobram ali dentro. Se for apenas pelo lado financeiro, poucos sobrariam para se submeter a tamanho risco e desgaste. A dinâmica dos turnos demostrava sempre algumas pessoas muitos especiais e realmente apaixonadas pelo que faziam. Tinham aqueles que cumpriam seus horários, parecendo não estar ali, mas tinham outros que simplesmente se entregavam e se mantinham presentes, ativos e extremamente empenhados no servir. Eram traços de humanidade dentro daquele ambiente hostil. A lucidez me fazia estar atento a tudo que acontecia, mas minha mente acabava não desli-gando, pois era uma ansiedade enorme em tentar descobrir se tinha algum progresso, quando evoluiria ou sairia dali. Sabia que tinha dois caminhos, poderia sair dali em um "sa-co", ou ser transferido para a uti pós-covid ou até o sonhado apartamento. Muitas vezes re-cebia morfina para poder desligar, tanto no processo de utilizar a máscara VNI, como em noites que passava acordado na uti. Você acaba ficando em um estado de alerta permanen-te e tudo aquilo apitando a sua volta, te mantém assim. Enfim começo a ver uma movimentação diferente e escutei que realmente havia uma uti pós-covid e na evolução os pacientes iam para lá. Já começava a sonhar com esse momento e ver um novo horizonte, apesar de saber que continuaria fechado no hospital. A parte boa de sair dali é que enfim poderia receber visitas e poderia ver a minha amada ale, o meu fi-lho Felipe e a minha nora Lolo. É fim de tarde e recebo a tão esperada notícia, que seria transferido para a uti pós-covid. Minha agonia era em avisar minha família e fazer com que eles venham me visitar. Era tanta saudade que doía o meu peito só de pensar nessa possibilidade. A minha cama come-çava a ser arrumada para o transporte o cilindro estava conectado e lá ia eu para um novo lugar, era uti ainda, mas não era mais a mais crítica. Vamos ver o que me aguarda e no mesmo espírito, sempre pronto para progredir.

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