6 - Fazendo amigos

Sempre acabo fazendo amigos por aonde ando e não seria diferente aqui na uti. Quando se passa muito tempo em um lugar, você acaba fazendo parte do lugar, não que eu quisesse passar mais tempo na uti, mas você vai se relacionando com as pessoas e naturalmente se criam laços. Os traços da humanidade podem romper a frieza, muitas vezes necessárias em lugares assim e deixar tudo mais leve apesar de tudo. Mesmo você encontrando as pessoas por turnos é engraçado que você sabe quando encontrará elas de novo e aonde as encon-trará. Os médicos intensivistas são sempre muito atenciosos e ativos na uti. O dr. André sempre me dava corda e sempre me observava, porque ele escutava minhas solicitações e antes de aceitar, avaliava. Sempre solicitava muitos exames e constantemente analisava várias pos-sibilidades. Tudo parecia bem, mas um dia o dr. André me avisou que iria retirar os meus acessos, por causa das infecções que estavam acontecendo na uti. Era bom e ruim ao mes-mo tempo, ficaria mais livre nas mãos e no fêmur, mas em compensação teria de fazer no-vo acesso e a gasometria votaria a ser na agulha. Acabei ficando só com o acesso central. Outros médicos que sempre me lembro eram o dr. Tales, dr. Michael e dr. Fábio, cada um tinha sua característica, mas a unanimidade era me segurar até estar 100%. Sempre juntos de equipes feras demais. O dr. Eduardo também ficou marcado pela extrema competência nas duas intubações e como estava sempre de olho em tudo. Já nos conhecíamos, mas nun-ca havíamos interagido em ambiente hospitalar, sabia de sua capacidade e competência, simplesmente confiei e como sempre pedi que deus o usasse. Prosseguia nas fisioterapias e percebia dia a dia a minha evolução. Um dia as cortinas entre leitos foram abertas e vi o meu vizinho de leito, era o Jovino. Ele parecia estar mais debilitado, não respirava tão bem e era também caso de covid. Ele e outros pacientes, passariam pela traqueostomia para melhorar a condição respiratória. Uma manhã apareceu o dr. Giovani e vez a traqueosto-mia de vários pacientes no mesmo dia. Eu só olhava meu monitor para ver se meus padrões estavam estáveis para não ter de passar pelo procedimento. Já era muita coisa acontecendo para eu ter mais isso para me preocupar. Tudo correu bem e tudo deu certo aquela tarde. Meu vizinho de leito estava agora com a traqueostomia e em recuperação e depois disso fazíamos mais contato e dividíamos a tv. Engraçado como um simples contato visual come-çou a despertar um sentimento de cuidado. Estava agora sempre observando o Jovino e no-tava que quando ele não se sentia bem, olhava para mim. Imagino que se você não fala e tem um amigo que fala na uti, isso deve ter muito valor. Uma vez meu vizinho tinha sido co-locado na poltrona, mas por mais que as nossas amadas fisioterapeutas queiram nosso pro-gresso, coisas simples se tornam difíceis em nosso estado e a falta da musculatura torna uma simples poltrona em uma "máquina de tortura". Nesse dia ele estava a algum tempo na poltrona e na correria da uti, ninguém estava pronto para tirar ele dali, só que ele co-meçava a escorregar e a cânula e toda a parafernália que estava ligada a ele, parecia estar saindo do lugar. Só sei que na segunda olhada que ele deu, usei minha voz para chamar ajuda, que susto. Assim comecei a me sentir útil, mesmo em uma cama, mas com certa cumplicidade com meu vizinho de leito. Nossas esposas se encontravam sempre antes da vi-sita, trocaram telefone e já se comunicavam a respeito de tudo que acontecia. Um dia o Jo-vino aprendeu a fechar o orifício da traqueostomia para poder falar e adivinha a pérola que ele soltou; "eu queria mesmo é tomar uma cerveja..." foi muito espontâneo e engraçado ali dentro ouvir algo assim, muito bom, demos umas boas risadas Algumas pessoas foram marcando minha estada lá na uti e em cada equipe minha intera-ção aumentava. David era sempre bem alegre, alerta, com um humor invejável, o Eldis era outra figura que me divertia, Edite, Maria, Dieza, Eliane, Pedro, Alex, Eduardo, José, Cláu-dia, Elen, tantos nomes que sempre serão lembrados por inúmeros gestos de cuidados e profissionalismo que me impactaram de uma forma tão especial que me fazia olhar para o mover de deus e como ele usava as pessoas. Era uma forma incontestável de ver um deus que ama e nunca nos abandona. Eram detalhes que sempre me remetia e me levava para a verdadeira razão de tudo. A ele toda glória e o poder! Certo dia, antes de ele entrar de férias, o técnico Eldis fez uma de suas proezas, ensinou uma paciente que estava na uti a assobiar. No começo foi engraçado, mas imagine quando todos os chamados passaram a ser por assobios e a todo momento. Podia estar acontecendo a maior das intercorrências, mas o assobio não parava. A equipe fez até um "agradecimen-to especial" a quem havia ensinado a paciente a assobiar e virou um chamado especial para ele próprio. Graças a deus a paciente teve alta e o Eldis entrou de férias, tudo acalmou de novo. As noites podiam ser difíceis, quando tinham coletas as 3:00 hs da madrugada de ga-sometria. O exame era doido, mas as vezes tinha uma enfermeira que não conseguia acer-tar e fazer a coleta. Eram as vezes três punções que resultavam em nada e um nova punção pela manhã novamente. Não queria reclamar, mas doía muito. Com a memória, fui gra-vando o nome de todos, suas funções, o que melhor faziam e em que turno pertenciam. A Dieza era a enfermeira certa para esta parte, sempre acertava e de forma rápida e eficien-te. Isso me ajudou a negociar com o médico o horário da coleta, para fechar no turno que tinham as enfermeiras que tinham mais prática e êxito no temível exame. Sem ter de apon-tar e constranger alguém, consegui ajustar e resolver o problema e bendita lucidez. A cada visita, tínhamos um resumo médico das novas possibilidades que meu quadro e exames iam revelando. Os doutores sempre céticos, cautelosos, mas munidos de dados e de muita ob-servação. Uma conversa que escutei um dia, tratava da possível alta para os tão sonhado apartamento. Era um sonho poder estar fora da uti e a melhor de todas as notícias, seria ter a minha ale comigo, como minha acompanhante. Para isso se concretizar entendi que além do estado clínico favorável, precisaria de uma evolução na fisioterapia e acima de tudo, que eu teria de dar um passo de ousadia e fé. Bom, em momentos assim, sempre lembro de que nada posso e que minha dependência de deus é total e que se tudo estiver dentro dos seus propósitos, acontecerá. Tinha de fazer a minha parte, que seria crer, manter minha mente sã e lutar para evoluir meu quadro, com todos os recursos que eram disponibilizados e me manter colaborativo. Começava a entender que minha oportunidade era única e que entre 10 casos como o meu, apenas 2 sobreviviam, era um milagre.

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