5 - O tempo passa e eu ainda estou aqui
Acabada a visita, o turno da tarde já está na atividade, vejo o David
interagindo com os pa-cientes, os técnicos se movimentando pela uti e aquela
rotina que parece ser igual, mas sempre te engana. Alguns dias via uma aparente
tranquilidade, mas de uma hora para ou-tra, alguma intercorrência acontecia e
por vezes alguém morria. Tudo tinha uma dinâmica e também as "surpresas",
pacientes que chegavam e os que estavam ali sempre na expecta-tiva. Hoje a
técnica em enfermagem, edite passou no meu leito e disse que me daria banho. Ela
aparentemente parecia frágil, menor estatura, magra, de meia idade, mas na
verdade se revelou uma gigante. Como se diz, houve uma empatia imediata e me
senti como se mi-nha mãe estivesse me cuidando. A cautela dela e a experiência
eram incríveis, ela encarava fazer toda aquela "ginástica”, sozinha e olha que a
criança aqui pesa 120kg. A tarefa era me dar banho no leito, mas sem dessaturar.
Graças a edite não tive escaras e todas as assadu-ras foram tratadas. Ela
tratava as possíveis feridas preventivamente e sempre com uma de-dicação sem
igual. Conversávamos bastante e fui percebendo como era importante intera-gir
dos todos que estavam ali e o principal, tratar a todos pelo nome. Nesse período
aprendi a me precaver de várias situações, principalmente as mais simples, como
se cobrir. Já dei-xava cobertores enrolados, de baixo dos meus braços, assim
quando precisava estava na mão. Por incrível que pareça, até o se cobrir era
difícil. Outra coisa foi ter a mão uma gar-rafinha de água, além do Gatorade,
que eram em algumas ocasiões a minha referência de que eu estava realmente ali.
Quando tive eventos de delírios, ter algo visível e pessoal, me fazia lembrar
aonde realmente estava. Logo depois de estar bem banhado, geralmente aparecia a
Thaís, fisioterapeuta e logo vinha com as propostas sempre mais ousadas. Íamos
fazendo os exercícios e conversando muito até ao ponto de constatamos algo
incomum. Mi-nha saturação subia enquanto falava, ao invés de cair. Dia a dia me
propunha a fazer os exercícios e a cada passo, percebia meu corpo reagindo. Tudo
era difícil, mas sempre dava um jeito de cumprir o proposto. A fisioterapia e o
ser colaborativo mudaram minha condi-ção e claro os banhos que agora eram
diários. novamente a lucidez me ajudou, um dia conversando com outra
fisioterapeuta, fiz uma proposta, que consistia em ter um tempo definido para
fazer o uso da VNI. Minha proposta era fazer por ciclos de uma hora o uso da VNI
e não como era com os sedados, que ficavam horas com aquele suplício.
Conseguimos ajustar o tempo, ter mais efetividade no exercício e principalmente
não apertar tanto a máscara no rosto. O aperto era parte da claustrofobia e
dependendo da fisioterapeuta a arrochada era certa. Quando o tempo passa e você
co-meça a perceber que continua na uti é assustador, porque você pode estar
sujeito a muitas coisas, inclusive a morte. Você aprende que lá não temos
certeza de nada, assim como na vida. Em oração, comecei a clamar e dizer a deus
que "seja feita a tua vontade..." mas que gostaria de manifestar a minha, que é
ainda ficar neste mundo. Pensava em quantas coisas ainda não tinha vivido e
visto e novamente me lembrava das palavras do pr. Miguel, que por duas vezes me
entregou palavras de revelação. Me enchia de convicção e da certeza de que os
meus propósitos ainda não tinham se cumprido. Durante estes momentos, uma vez
ouvi claramente em meus ouvidos, "você deve orar pelas pessoas da uti e por
todos esses profissionais que trabalham aqui, porque já tem muita gente orando
pela sua vida lá fora". Olhava para aquele cenário e mais do que rápido começava
a pedir pela restauração de to-dos ali, para que as famílias fossem confortadas
e principalmente para que todos os anjos ali acampados, em forma de técnicos,
enfermeiros e médicos estivessem sustentados e guardados por deus. Ser cristão
sem falar pode parecer algo impossível, mas provei de co-mo as nossas atitudes
podem mover e trazer o aroma de cristo para um lugar. Quando co-mecei a tratar
todos ali pelo nome e me esforçar em ser o mais cordial possível, mesmo em meio
a tudo que vivia, me parecia a melhor coisa que podia fazer naquele momento.
Aliado a um espírito colaborativo e de luta, fui sentindo o ambiente ser
modificado. Se era bem tratado isso melhorou mais ainda e as conversas foram
deixando o relacionamento cada vez mais humano. Percebi o quanto era importante
mostrar quem eu era e no que cria. Hoje acordei melhor, sempre melhor do que no
dia anterior. Estava ansioso em saber qual seria o novo desafio que a Thaís
traria. Quando ela apareceu, logo veio animada e me deu uma notícia, que eu
tomaria banho de chuveiro. Nem imaginava como seria isso. Daqui a pouco vejo ela
chegar com a edite, com uma cadeira de rodas, e um respirador portátil tipo "bip
bap". Montamos aquela parafernália toda, dei os meus primeiros passos, depois
sentei na cadeira de rodas e fui até o banheiro para tomar banho. Lá sentei em
uma cadeira de plástico junto com o respirador e claro com a edite a postos,
aconteceu o banho. Foi mara-vilhoso ver que era possível e que suportava. Para
mim esse dia foi o marco e se já acredi-tava na fisioterapia, agora virava fã.
Sem os progressos e todo incentivo não conseguiria mudar minha condição e sair
da cama. Com o período que fiquei entubado e sedado, havia perdido muito
músculo, principalmente por causa dos bloqueadores musculares e o meu corpo já
sofria por essa perda. Agora era correr contra o tempo e recuperar, essa era a
pa-lavra de ordem.
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