2 - UTI COVID 1

Já na uti covid e devidamente instalado, comecei a perceber toda a luta que teria pela fren-te. Comecei a perceber o quanto somos pequenos, estava ali seminu, apenas de fralda, sem nem saber como fiquei assim. Se você acha que vai chegar lá e deitar em uma cama e ficar se recuperando, você está bem enganado. Além da monitoração, que deixa você ligado a sensores, você tem de usar no braço o aparelho de pressão, que te aperta durante o dia e a noite toda. O apito não para. Exames são coletados e numa logística inimaginável, acontece durante as 24 horas do dia. Todos aqueles técnicos e enfermeiros se organizam através dos turnos para não deixar faltar medicação alguma e também estar sempre de olho em seu estado. Fui apresentado a uma nova posição, que teria de ficar por um bom tempo, era a chamada posição de prona, ou melhor falando, de bruços. Com toda a sorte de fios ligados a você, essa virada parece ser quase uma operação de guerra. Depois de toda essa luta, adivinha quem chegou ao meu leito, novamente a temível VNI. Não queira ter febre na uti, pois sua coberta é retirada na mesma hora e como você fica apenas de fralda, o frio é uma coisa de louco. Sempre frio e o ar condicionado central sempre ativo. Cansaço no pescoço, dores no corpo e novamente o medo de não conseguir fazer os proce-dimentos e ter de ser entubado, começam a te assombrar. Em meio a tudo que vinha observando, comecei a ver as baixas, leitos que repentinamente ficavam vazios, cortinas que abriam e fechavam, mostrando como aquele momento era de-licado e estávamos por um fio. Vida e morte estavam por ali e mal sabia o que poderia acontecer nas próximas horas ou se sobreviveria. Tinha uma certeza, que acreditava que podia vencer, que podia suportar e principalmente que deus estava comigo. Saber a quem eu pertenço, aliviava e me deixava curioso, pois saber que o mesmo deus, que me comprou a preço de sangue, que era por mim, tem propósitos para a minha vida e que por sinal eu não sei quais são. Que valiosa verdade que nos mostra essa possibilidade desconhecida e nos faz pensar no pra quê. Não nos deixa olhar para um suposto mérito, que por sinal não temos. Como deve ser duro olhar para esse quadro e perguntar porquê? Como é duro sentir que não merece estar naquele lugar e naquelas condições, por achar que me-rece algo. Essa meritocracia não vale para nenhum de nós, pois "todos fomos destituídos da glória de deus..." e assim com entendimento e devoção, enxerguei o quanto era necessário eu estar ali, mesmo temendo e não tendo certeza de nada, mas pronto para mostrar ao mundo, através da minha vida, essa verdade. Essas foram as minhas primeiras noites, mas em uma manhã, um grande apagão me pe-gou de surpresa, fui sedado e submetido a temida entubação. Fiquei sedado por oito dias e a única lembrança que eu tive de tudo aquilo, foi um sonho, aonde eu estava em um lugar estranho, com sons metálicos, vozes ao longe e com o sentimento de estar totalmente imó-vel. Logo entendi que estava sedado e novamente adormeci. Não recordo da minha extubação, mas lembro que logo comecei a reconhecer os enfermei-ros, médico e técnicos que cuidavam de mim, um enfermeiro veio aos meus ouvidos e me informou que te e de cortar minha barba. Cheguei com cara de motoqueiro e agora só me restava o bigode. Na primeira observação que parecia o Fredy Mercury, mandei cortar tu-do, logo imaginei que podia ganhar um apelido. Não senti nenhuma dor e não tinha nenhu-ma lesão e logo comecei a falar. Tinha novos dispositivos ligados em meu corpo, o acesso venoso na mão, foi substituído por um acesso femural e na outra mão recebi um acesso com duas torneirinhas, para as coletas de sangue arterial e venoso. A má notícia foi receber as seguintes recomendações, que se acontece de arrancar o acesso femural e o da mão, haveria um sangramento muito grande e também poderia ocorrer uma forte hemorragia. Além de tudo que já tinha ligado no corpo, essas últimas recomendações me deixaram sim-plesmente perplexo e com medo até de me mexer na cama, dormia imóvel. eu estava lúcido e na uti, entendia tudo que acontecia, mas já sentia uma desorientação temporal. Começaram as rotinas médicas e para manter minha mente sã, comecei a obser-var e gravar os procedimentos, medicações que recebia, nomes dos técnicos, enfermeiros, médicos e quem era de qual turno. Tudo parecia estar indo bem quando ouvi do chefe dos intensivistas, por sinal um anjo que deus colocou naquele lugar e com certeza fez a diferen-ça na minha vida, comentando que deveria ser entubado novamente. Minha primeira extubação foi no limite para que as sequelas não se ampliassem, mas agora acabava de entender que seria entubado novamente. Acordei em meio a sedação e estava entubado novamente, até dei tchau para a ale pelo telefone. Durante esse processo, era de manhã e o médico me perguntou se queria retirar o tubo. Naquele momento só podia pen-sar que se tive que passar por isso de novo, porque já tirar? Incrivelmente neguei a retirada e aguentei as pontas com aquele desconforto todo. Chegando à tarde, novamente a pergun-ta do doutor, só que agora o fato de conhecer as rotinas me fizeram refletir por segundos, se o chefe está no plantão, e a mesma pessoa que me entubou está perguntando se pode fazer a extubação, caso não tire agora e trocar o médico do plantão, provavelmente ficarei entubado por mais tempo. Daí mais rápido do que nunca, concordei em tirar e ser liberado daquele suplício. Estava sem o tubo, mas não conseguia falar e acabei escutando que a minha saturação es-tava baixa. Durante a noite, escutei as enfermeiras comentando que se as mãos estivessem frias, poderia ter variação no sensor. Minha agonia era não poder falar para explicar isso, até que vi a tábua de letras e pedi para mostrar o que queria. Em movimentos lentos apon-tei letra a letra até poder me fazer entender, "mão fria, saturação baixa". A fisioterapeuta entendeu e mais do que rápido corrigimos a situação e pude ficar um pouco em paz. Na uti covid, havia sempre um movimento e uma corrida para as intercorrências que iam acontecendo. Ia recebendo injeções anticoagulantes na barriga, doses de vitaminas, muita medicação nos meus acessos e as intermináveis coletas de sangue para exames. Passava o tempo reconhecendo tantos procedimentos e sempre atento a minha situação e o que os médicos falavam na troca de plantão. Além de tudo isso, percebia a presença de deus ali de forma muito forte e escutava por vezes que tinha de orar por aquelas pessoas acamadas e pelos técnicos, enfermeiros e médicos, as vezes até pensava como assim? Estou aqui e te-nho de orar pelos outros e logo em seguida também ouvia, já tem muitas pessoas interce-dendo por sua vida lá fora... Por sinal, como as orações mudavam as situações e aliviavam a ansiedade, mantinham minha mente sã e protegida por toda pressão psicológica que estava vivendo. Sempre algo dentro de mim me levantada e reafirmava, que sem luta não haveria vitória e que muitos estavam emparelhando seus escudos em meu favor e com certeza meu fardo era aliviado.

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